A Saudade©

Luis Felipe Esteves   

Elizabeth Misciasci    

                                  

Vencido pela profunda angústia da minha mágoa, despertei quando o jovem rosto da manhã adornado de luz e o mar de nuvens viajeiras, me convidaram para o banquete do dia.

Com os olhos dispersos, num vazio constante  tentava contemplar a beleza incomensurável daquela manhã que chegava ínclita.

Levantei e percebi que não fora um pesadelo... A presença da sua ausência era a mais pura e triste realidade...

Não...não havia ausência e nem tu tivestes um pesadelo...embora a distancia indiscreta fosse fluorescente a enfatizar o espaço vago entre o sonho e a realidade.

Não sei dizer ao certo se é a presença da ausência ou a ausência da presença, ou talvez seja, simplesmente, saudade...

Ausência que revela com sofreguidão a busca necessariamente explícita de um "estar" pleno.

Lá fora tudo respirava perfume e os braços do vento, carregando o pólen da vida, cantavam nos ramos do arvoredo delicada canção...

Talvez estivesse eu neste momento plasmando os sonhos de outrora entoando  a minha saudade no mais doce encanto...

Saí a correr para fora, tentando fugir da furna escura dos meus padecimentos.

 Conflitos sentidos  percorreram o tempo e no vento chegaram até onde não imaginei.

A presença invisível do bem-amado fazia-me arder em febre de ansiedade, enquanto os pés ligeiros das horas corriam à frente impondo-me fadiga e desconforto...

Tentando repudiar tudo o que me fizesse lembrar a ausência dava evasão aos sentimentos que acalentava por não suportar tanta dor.

Embriagado pela saudade, meu ser ansiava pela paz...

Saudade excedente  tornou-me tênue, infeliz...

Em vão tentei exaurir as forças para livrar-me da dor, mas não lograva libertar-me do punhal da melancolia cravado no coração, e da lembrança da sua ausência...

Tormento infindável... lembranças  amargurando meus dias desabaladamente. 

Quando, enfim, a tarde se escondeu ao longe das montanhas altaneiras, outra vez tombei em mim mesmo, extenuado e só...

Lembranças...tudo o que me deixaste, nada pra acalentar minh'alma...

Naquele momento desejei que o Todo Poderoso me dominasse com os fortes recursos da soberana misericórdia, livrando-me de mim mesmo...

E em orações, rogava um fim para o calvário que consumia meus dias colocando-me num eterno depauperar.

Parecia que não mais suportaria o espinho da saudade cravado em meu peito, já dorido e exausto...

Acreditar poderia ser a fonte de esperança pras dores e lamentos

A ausência da sua presença queimava as fibras mais sutis da minha alma.

Um padecer sem limites...

E a presença da sua ausência feria-me o coração dilacerado e só...

Só...era a ausência presente a desabrigar o crepúsculo em cada espera de um êxito final.

A noite devorou o dia, e, ao escancarar a sua boca negra, mostrou a primeira estrela engastada no manto escuro, vencendo as sombras...

E sem conter o coração dilacerado tendo meus olhos a marejar,  dei guarida aos mais tristes sentimentos que de mim já fazia portuária.

Minutos depois, miríades de astros brilhantes compuseram o diadema da vitória total da luz...

E em minha pousada,  lamentos deprimidos a povoar levou-me a reflexão.

Só então, solitário e meditativo, compreendi como a minha canção de dor chegara ao ouvidos do Criador, que me respondeu em vibrações fulgurantes de esperanças à distância...

Senti como um pressentimento que meu momento tão aguardado não tardaria a chegar e que  com ele eu renasceria...

Só então compreendi que não há escuridão que resista a um simples raio de luz, e decidi acender a chama da esperança em minha alma.

A luz que acendeu a chama da esperança, iluminou meu caminho  retirando o véu da escuridão que me envolvia

E só então, pude ouvir o Sublime Cancioneiro do silêncio e Suas melodias repletas de sons e paz, convidando-me a confiar em Seu infinito poder e entregar-me aos braços suaves da esperança...

Confiante aqui fiquei

Se o manto escuro da saudade pesa sobre os seus ombros, ilumine-se com as pérolas da oração sincera em favor do bem-amado que partiu.

 Crédula  tenho a preeminência tão almejada...

Preencha a ausência da presença com a lembrança dos momentos compartilhados nas horas alegres, e confie no reencontro feliz.

Reencontrei...preenchendo um vazio, chamado... Saudade.

 

 Luis Filipe Esteves   

Elizabeth Misciasci

 

 



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