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Por:-
Luciane Macário
O tilintar das chaves deixava o ambiente ainda mais sombrio, o vento gelado deixava as faces das mulheres “presas” em suas celas apertadas, ruborizados...
"Nem vem que a parada é federal mano, comigo, deu milho, já era"...
Assim Valeria se reportava as demais colegas do pavilhão em que "tirava" sua cadeia.
Apenada a 9 anos e 8 meses por tráfico de drogas valeria ou “urso” como era conhecida, se gabava pelos tiros que trocou com os policiais quando fora efetuada sua prisão.
Ninguém se atrevia “meter as caras” com ela, temida, respeitada, que caminhava pelas galerias gritando -“ 'alcagüete na minha mão sofre, e no dia em que eu descobri que existe uma dentro do pavilhão, vou 'sumariar' no ato, neste dia não tem perdão".
Valeria mantinha suas atividades de traficante mesmo presa, era uma das mais fortes da cadeia, seus "portadores" eram competentes e não deixavam a "boca vazia".
Mercadoria tinha de quilo e a variedade era satisfatória para suas clientes viciadas.
Dívidas eram os maiores problemas que Valeria enfrentava para administrar "seus negócios", muitas meninas compravam suas mercadorias, depois não tinham dinheiro no “pecúlio” para pagar a divida. Para piorar ainda mais a situação, a maioria nem família tinha, haviam sido abandonadas na cadeia, e não encontravam saída para honrar suas pendências, em função de seus vícios. Receber um da rua, “Jumbo” para aliviar no dia da “paga” com os “pacotes de cigarros” para acertarem as drogas, era impossível.
As “lutadoras” enfrentavam as que não queriam e ou não tinham como pagar o que deviam a Valeria, e se "prestassem" para o serviço, tornavam-se soldados a trabalho da "boca".
Algumas meninas saiam completamente deformadas de tanto apanhar, outras com perfuração no pulmão, e assim por diante, cenas tristes e deploráveis.
“Quando há acerto de contas, nem o vento se atreve passar entre dois lutadores ou estaqueadores”.
No dia seguinte, quando questionadas sobre o ocorrido e as marcas na pele, a resposta era sempre a mesma:-
-"Cai da cama senhora".
Ninguém se atrevia contar o que de fato se passou na galeria.
Cada vez mais Valéria se firmava nos "negócios" e a cadeia sem esperança de um futuro melhor, sem educação, com a reabilitação precária, falta de emprego, e com uma administração que perdeu a noção e o senso de direção, deixando com que as internas tomassem ciência até mesmo, dos problemas pessoais de cada membro do corpo de diretores da unidade, ia se desestruturando. Para se conseguir um mínimo de disciplina, as internas mais "ousadas" viviam sendo ameaçadas 24 horas por dia a irem de "bonde" para a tão temida “caverna” RDD ou anexo. Com tanta falta de pulso e disciplina, mais uma facilidade para comprar produtos que entravam de forma ilícita na unidade, as que não conseguiam "segurar a onda" sentiam-se cada vez mais incentivadas ao uso de drogas, o único refugio "acessível", uma vez que até mesmo os parceiros, projetos sociais e voluntariados foram impedidos, cerceados da forma mais covarde possível, de continuarem trabalhando "graciosamente" na unidade. As que eram atendidas, precisavam e queriam ajuda, foram recambiadas para outras unidades, ou ameaçadas. Quem "ousasse" pedir a presença da comunidade, igreja enfim, seria punida. Tudo era ameaça e mentiras contadas para impedir uma paralisação e conseqüentemente rebelião.O lema passou a ser:- "Já que perdemos o controle com as 'presas', vamos afastar todos os que podem fortalecê-las, presa ainda? Não!!! Estas não tem nem o direito de abrir a boca. E, se este "povo" que vem aqui, "pra encher lingüiça" ou perder tempo com bandida, souber pelos "passarinhos" o que estamos passando, vão trazer mais problemas. Assim sendo, fica proibido até colocar as coisas sob controle a entrada ou saída de pessoas, que não sejam funcionários, ou visitas em dia certo. A gente que é direção, tem que tomar muito cuidado com esse povo, que acaba virando espião".
Certa manhã, o silêncio imperou nos pavilhões e o barulho das trancas sendo abertas não ecoou...
O ambiente estava sinistro, a maldade pairava no ar...
Cachorros latiam, barulho de botinas subindo os degraus que levavam até ás galerias dos pavilhões.
O tilintar das chaves deixava o ambiente ainda mais sombrio, o vento gelado deixava a face das mulheres “presas” em suas celas apertadas, ruborizado...
- "O batalhão de choque DE NOVO não meu Deus"! Falavam as reeducandas baixinho enquanto oravam.
- "Desçam das pedras e sentem no chão com as mãos para cima". Falava a policial do batalhão de choque, com uma voz firme e forte.
A porta da cela se abriu, e uma a uma as meninas saiam de dentro do x 1 com as mãos na cabeça.
Se despiram, abaixaram e levantaram por 3 vezes sem vestir nenhuma peça de roupa,nem mesmo intima, para assim os policiais verificarem se não havia nada escondido introduzido nas partes intimas das apenadas, depois, recolocaram as calcinhas e sutiãs e ficaram sentadas, agora no chão frio da galeria, uma encaixada na outra de costas.
(quem estava com absorvente também tiveram que retirar, e recolocar sua calcinha sem o mesmo).
-"Abaixe a cabeça, não olhe para nós, não faça nem um movimento. Berrou uma outra policial do choque quando uma reeducanda, tentou virar a cabeça para olhar dentro da cela, que estava sendo revirada por agentes penitenciários.
Colchonetes finos e úmidos eram retirados das “pedras” e jogados para fora da cela, alimentos revirados, cigarros quebrados pela brutalidade com que a revista estava sendo feita. Tudo pisoteados, sucos e refrigerantes abertos, fotografias sendo rasgadas, dando fim ao único bem de valor dentro de um presídio, a fotografia de filhos, maridos, mãe ou irmã, amigos e parentes.
A degradação total do ser humano.
Sujas, com frio, com fome, uma a uma, as mulheres chorando eram liberadas a voltarem para cela, e novamente trancadas, começavam a arrumação.
O que se passa na cabeça no momento em que o choque entra no presídio para uma revista?
- acho que este é um dos piores momentos dentro da cadeia, da medo, você não sabe o que pode acontecer. Mesmo se a maioria tenta colaborar, deixando sem nada falar, suas coisas serem destruídas, remexidas, esquecendo das cólicas, da fome e do frio, sempre tem as que não suportam caladas e ai, ah, ai, a coisa pode ficar feia. Dentro de um presídio em momentos como estes tudo pode acontecer. O que sentimos é pânico!
A caravana de policiais do choque e de agentes penitenciários continuavam a sua jornada agora em outra cela, e assim foram passando as horas.
Cada pavilhão é diferente um do outro, uns têm 3 alas, outros 2 e assim por diante. A revista estava sendo efetuada ao mesmo tempo em todos os pavilhões.
Havia começado ás 7:30 da manhã e até ás 11:00 ainda não havia acabado em todas as celas.
Em uma das ultimas revistas, uma reeducanda pergunta para um policial.
-"Posso fumar senhor"?
- "Sim". Respondeu a policial sem olhar para trás.
Outro policial que não havia ouvido a reeducanda pedindo autorização para fumar no final da "revista", se voltou para a interna e mandou que apagasse o cigarro aos gritos, ordenou para que se afastasse das demais,ofendeu e, não bastando, mandou com que o cachorro do choque, lambesse as costas da mulher sentada com os braços cruzados e a cabeça entre as pernas, o animal se aproximou e ao comando do policial, lambeu em forma de cruz as costas da reeducanda que neste momento estava completamente em pânico.
-O que dizer ante uma situação como esta? -Como tomar medidas?
A palavras de uma reeducanda quase nunca tem valor...
Fim da revista e nada fora encontrado alem de 2 carregadores de celular fabricados dentro da própria cadeia, uma faca de cortar pão velha e enferrujada, um pedaço de tesoura para cortar barbantes usada costumeiramente para confeccionarem artesanato, um pouco de “água branca” ou seja pinga, Maria louca, e um celular.
-Como pode usar os serviços do batalhão de choque para uma revista, alegando que as reeducandas estão fortemente armadas e com uma quantidade de drogas absurda e no fim da revista nada ser encontrado? Tudo bem, que é procedimento normal a blitz de tempo em tempo, mas três vezes em um só mês e sem nenhuma apreensão para tanto alarde e constrangimento...
-"Onde esta a corregedoria para filmar a revista"? Perguntou a assistente social do presídio.
-"Não veio, a própria policia filmou tudo, isso vai dar pano para manga, hiiii". Respondeu um funcionário da cadeia que lá estava, acompanhando tudo de perto.
O choque acabou a revista e sem comer ou beber nada no presídio seguindo as ordens superiores, foram embora, deixando para trás marcas de medo em cada uma das mulheres daquela unidade prisional.
A falta de água naquele dia na unidade dificultava ainda mais a limpeza e a arrumação das celas, alimentos foram derramados, meninas precisando tomar banho, fazer a higiene pessoal após serem revistadas completamente sem roupas, abaixando e levantando por 3 vezes de frente, de costas e de lado.
O almoço delas havia chegado no horário de sempre entregue pela empresa que atende a unidade, pois a mesma não tem cozinha como outras, o calor, somado a temperatura do alimento nos marmitex, fizeram com que os alimentos azedassem; alguns pavilhões comeram sem nada falar onde a fome falou mais alto, já outro pavilhão, nervoso, não aceitou devolvendo todos os marmitex, momento em que revoltadas, com auto estima estraçalhada, diante daquela condição de injustiça literalmente provocada, fez com que começassem a bater grade e a gritarem.
Já estávamos dentro da unidade e neste momento seguimos para o corredor de acesso. Quando as meninas nos viram de lá de cima, olhando pelas grades das pequeninas janelas do pavilhão, gritaram nosso nome, pediram ajuda, diziam estar com fome, e que a comida estava estragada.
Provamos a comida e realmente a mesma estava sem condições de ser consumida.
Ninguém se atrevia entrar naquele pavilhão, todas as meninas soltas e nervosas, com fome, sem banho estava com falta de água naquela semana e a água ainda não havia chegado, mas, o zaP entrou.
O sol frio não aquecia o pátio interno do pavilhão, o vento soprava e fazia os cabelos das meninas esvoaçarem, com o rosto visivelmente abatidos de tanto chorar, uma senhora veio nos mostrar os óculos dela que fora quebrado durante a revista, outra com um pacote de pão chorava falando que o pão era para seu filho no dia da visita e que o pacote fora pisoteado.
Resolvemos subir nas galerias, choramos quando vimos as meninas arrumando as celas quase que completamente destruídas...
O que fazer?
Era nossa palavra e a delas, afinal a corregedoria não havia acompanhado a revista...
Acertamos com as meninas para esperarem o café da tarde que seria acelerado e o jantar também, assim elas comeriam comida fresca, digna de seres humanos.
Saímos daquele pavilhão com o coração em pedaços e fomos aos outros...
A cena era a mesma, mulheres com a auto estima completamente destruída, chorando, sentindo vergonha da humilhação de ter ficado sem roupas na frente de pessoas estranhas, senhoras de 68, 62, 53 anos choravam baixinho no canto da cela...
O que dizer em um momento como este, as palavras fogem, as lágrimas tomam conta de seu olhar e o soluço simplesmente impedem as palavras e a respiração de saírem.
Ali naquele lugar não mais existia dividas, “michas de cadeia”, eram apenas mulheres vítimas de uma situação sub humanas chorando unidas, perdendo a fé na humanidade, muitas nem mesmo ainda estavam condenadas, aguardando a sentença presas, sentiam na pela o descaso, a humilhação, a dor da batida da tranca, ferindo na carne feito navalha que corta e fere sem dó.
O “proceder” falou mais alto dentro das muralhas de concreto, enquanto a ética do outro lado da linha de tiro simplesmente, havia deixado de existir.
Quanto a entrada do choque, nada fora feito, os óculos de Maria foram devolvidos por nós, os remédios de HIV jogados fora durante a blitz, fora reposto mas, algumas reeducandas já estavam passando mal, os alimentos pisoteados e que foram comprados com o dinheiro do trabalho das sentenciadas dentro do próprio presídio, ficaram perdidos.
Saímos as 19:30 de dentro do presídio e a água ainda estava muito fraca, algumas meninas ainda estavam sem banho...
As lembranças daquele dia jamais sairão da memória de quem esteve naqueles pavilhões e caminhou dentro das galerias olhando cada cela quase destruída com “gambiarras” de luz por falta de manutenção dentro das alas.
Os olhares de mulheres, mães, avós, pedindo socorro nunca irão se apagar de nossas mentes, que ainda hoje, quando se fecha, pode enxergar claramente dona Maria ( uma senhora de 65 anos) com os óculos quebrados nas mãos, chorando dizendo que não estava enxergando nada.
Dona Maria, presa por trafico de drogas, por estar na casa do filho único, passando férias no dia em que a policia estourou a boca através de uma denuncia anônima; Dona Maria não sabia da droga, seu filho fugiu, ela fora condenada e abandonada na cadeia, pena (13 anos, 2 meses e 5 dias).
Valéria sentou-se no murinho enquanto nos olhava sair do pavilhão, quando o portão de saída para o corredor de acesso se abriu ela gritou.
-"Beth e Lu, obrigada por vocês terem vindo nos ver. Olha, não esquenta não, já não quero mais saber quem é que 'corre com a policia' aqui no pavilhão, acho melhor me unir ao comum e ajudar vocês a pedir ajuda pra nós aqui, não morrer a mingua".
-"E os negócios (pois isso NÃO ERA SEGREDO PARA NINGUÉM)"? Perguntamos com uma voz fraca e cansada.
-"Vou largar mano, essa vida não quero mais, quero sair daqui e ajudar vocês a continuarem a lutar por quem ficar aqui. Vocês me mostraram que fazer o bem é a melhor coisa do mundo. Obrigada eu amo vocês".
Se o trafico de drogas parou desde então?
Esta resposta infelizmente não é positiva como queríamos que fosse mas, uma certeza nos temos, de que, valeria a “urso”, nunca mais traficou em sua vida, arranjou um emprego e trabalha honestamente enquanto cumpre seu final de pena num outro presídio feminino de São Paulo e faz parte do grupo de apoio interno de reeducandas do Projeto zaP!.
Se vencemos?
Não, ainda Não! Talvez, nunca consigamos sentir o gosto de uma vitória plena, mas com certeza, já trilhamos bastante e temos a certeza, de que muitas situações que se demonstravam irreversíveis, com nossa persistência, conquistamos grande parte dos sonhados objetivos.
Não vencemos a guerra constante e permanente do dia á dia, nem é este o que buscamos, porém, uma batalha entre milhares, Sim, nos fez e nos faz vitoriosas a cada dia na luta em busca da paZ e da conscientização social. Que assim seja, até quando Deus permitir, pois ainda acreditamos no R da Reabilitação e Não no R da reincidência.
E é por isso que estamos aqui!