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Por:- Luciane Macário.
A garoa nos fazia tremer de frio e o vento congelava nossas mãos que seguravam as mãos de “*Estrela* que soluçava em prantos...”.
Atravessamos a cidade como quem atravessa os mares para chegar até o presídio do Carandiru, tamanho era o volume das águas que corriam furiosamente pelo chão.
A avenida Zacki Narchi estava completamente parada, e nós ali de frente aos portões azuis da Penitenciária Feminina do Estado esperávamos que os portões se abrissem para o carro entrar.
O camburão ou “bonde”, que é a viatura que transporta as internas que estão sendo recambiadas para outro presídio, ou as leva para alguma audiência, hospital, enfim, estava parada na entrada, num significativo sinal de que algumas das meninas estavam se movimentando.
Muito deprimente a cena, não da para explicar...
Atravessamos o segundo portão, aceleramos os passos, pois a chuva caia torrencialmente sobre nós, desnecessário se faria correr para nos proteger, pois já estivamos completamente molhadas e naquele instante, a pressa já não era problema.
Sentimos o peso do ambiente, pois em dia de chuva um presídio fica mais triste do que já é...
Angustia e agonia eram sentimentos a pulsar vorazmente e não conseguíamos esboçar olhares diferentes, porque notório era o pesar, diante do cinza mais cinza que um dia nebuloso possa ofertar.
Seguimos então, ao escritório da diretora geral, que é localizado do lado esquerdo de quem entra no primeiro acesso da unidade. Dr@ Maria da Penha, nos recebeu com um enorme sorriso e uma boa xícara de chá, cordialidade e carinho dos que sabem receber bem as visitas que chegam.
Conversamos por alguns minutos e assim que a chuva parou fomos aos pavilhões.
A garoa fina agora dominava e uma brisa fria ainda soprava, o céu escureceu rapidamente e às 14hs parecia que já era noite.
O frio foi passando com os abraços que recebíamos das meninas reeducandas que corriam ao nosso encontro.
Caminhamos em direção a *Estrela* que sentada em um canto do pavilhão chorava copiosamente.
Assim que nos aproximamos, pudemos perceber que seus olhos esboçavam uma transparente dor, o que pela intensidade do sofrimento, nos fez chorar também.
“Jamais esqueceremos aquele momento”.
Conversamos muito...
Falamos da chuva, da água dos rios, falamos da fome, falamos de saudade, falamos de arrependimento, falamos de sofrimento, falamos de crueldade, falamos de amor e morte, falamos de pai e mãe, falamos da família de *Estrela*.
A garoa fina, já nos fazia tremer de frio, como se todas as temperaturas se revezassem naquela tarde e o vento congelava nossas mãos que seguravam as mãos de “*Estrela*”.Que ainda chorava...
Os olhos de alguém que um dia teve tudo, casa e carro de luxo, oportunidade e nome forte na vida, amor e estabilidade, quando esta dentro da prisão perde o sentido, não há brilho, fica morto, e para nós, machuca só imaginar as dores sentidas.
O vazio dos olhos de *Estrela* naquele dia era diferente, seu significado tinha nome:- saudade!
Saudade verdadeira como poucas vezes vimos nos olhos de alguém, saudade que faz doer e mata a alma aos poucos.
Saudade do que já teve, do que já foi e do bem maior que alguém pode ter e que aniquilou de sua vida, saudade de quem deletou seus melhores momentos vividos completamente. Saudade de quem só tem o reflexo de sua imagem hoje, no Espelho de aço.
Naquela tarde definitivamente não nos concentramos em mais nada e nem conseguimos atingir nossos costumeiros objetivos entre tantos, que seria acalentar, acalmar, diminuir a dor de muitas outras internas e de *Estrela*, que explodiu como ninguém que conhece sua história jamais viu...
A chuva ainda caia sobre nós, seguimos caminhando lentamente deixando a chuva nos tirar o peso das lágrimas daquela menina, *Estrela* que chorara a condenação que ninguém no mundo suporta o peso, a condenação da Consciência.
Quando os portões se fecharam sentimos um tremor frio, que não vinha do vento frio, nem tão pouco da chuva, mas sim das dores de *Estrela* que parecia carregar o “carma” de seus entes queridos e que pela confiança ao rasgar seu peito e desabafar suas dores, os plasmou, dando-lhes a vida morta naquela tarde e que em nós impregnou.
Por:- Luciane Macário-Novembro de 2003
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