O corpo de uma mãe estendido...

 

 Por: Luciane Makkário

O céu é quadrado lá, do outro lado... Não se vê pássaros a voar!

Cada passo que damos dentro da grande muralha, sentimos um vento diferente bater em nossa face.

Um canto de solidão ecoa no ar... Não há  ódio, só desespero e dor em cada olhar...

Gritos nos pavilhão, movimentos e, sentimos o pulsar do coração aumentar.

Em um gesto  no corredor de acesso, algumas meninas chegam para nos saudar.

Um abraço apertado, um sorriso, um toque de mãos, almas que se reconhecem, “são do bem”, gritam em coro então.

- Saudades!!!

Um dia atrás do espelho de aço, das grades que as cercam,  vale por dois meses aqui fora,  no espelho de águas claras.

Os dias são cinzas, frios demais ou quentes em braza.

Cada sorriso conquistado vale ouro, onde a nascente das lágrimas vertem forte sem parar.

Mais alguns passos lentos e a liberdade em pensamentos corta o peito,  faz  sangrar...

-Como é triste o cárcere!

O céu é quadrado!  Lá, do outro lado, não se vê pássaros a voar...

Em frente ao portão, esperamos alguém para abrir, não vamos sair, estamos entrar e, sob os olhares que nos fitam seguimos, caminhando na direção que nem mesmo o coração naquele momento, pode explicar... Sem  razão.

O céu é quadrado, lá, do outro lado, não se vê pássaros a voar.

Nada pedir, nos sentamos ali e começamos a cantar...

Não uma canção comum, cantamos uma canção de alma, que evolui, que acalma, cantamos em uma língua universal, que para muitos tanto faz!  Entoamos o canto de amor sublime, cantamos o canto da paz.

Vozearia, olhamos a nossa volta ecom alegria notamos, elas estão a cantar junto a nós!

Lá na “jega” (cama)  alguém nos acena, vamos beijar, nos perguntando...

- Será qual é a pena, qual delito está pagando?

Não dá para segurar... Uma senhora de 61 anos 16 anos vai puxar...

Choramos o choro da dor, do abandono. O choro do desespero, daquele olhar não mais sonhador...

Fraca, sofre de hipertensão, não consegue caminhar, nem mesmo pode buscar obandeco”  (comida) quando começam a pagar...

Naquele andar já não mais avistamos alegrias, ali dentro das galerias, só se ouve lamento e dor.

Corre corre, e seguimos para outra ala, onde as meninas estão a gritar...

Olhamos, nossas meninas gritam e choram, depois um silêncio absoluto, respeito, luto, naquela hora, olham o corpo indo embora em um carrinho, uma de nossas meninas morreu.

Ana Alice faleceu, HIV positivo, já não queria viver,  triste e se punindo por não ver seu filho crescer...

Não há nada mais doloroso  que ver uma menina, uma mãe, enfim, uma mulher dentro da prisão, parece que o coração vai parar de uma vez.

Sem telefone e morando em um bairro de invasão, a policia vai então sobre o óbito avisar.

São José do Rio Preto, a família dá um jeito e vem o corpo buscar.

Uma senhora visivelmente sofrida, chora a perca da filha com uma criança do lado.

- Mamãe mora aqui... Diz a criança inocente, sem saber que para sempre sua mãe o deixou.

“Voando, estou voando, sempre quando entro em crise e fico mal, sinto meu corpo voar... quero morrer, assim fico livre... vou voar. Vou ver meu filho lá de cima, vou fazer tudo certo, não vou errar, Deus vai me deixar cuidar do meu nenê. Ana Alice G.

Estas eram as palavras mais freqüentes de Ana Alice quando passava mal e era levada para o PS.

Se são 30 ou 40 degraus não contamos, só sabemos que choramos.. E o quanto lamentamos mais uma morte,  mais uma dor.

Sentadas no chão ou na “pedra” (cama) da cela as meninas ficam a esperar, depois de nossa despedida, a contagem vai passar.

Os grilhões batem forte, estremece o coração, nem da para falar como é triste, ver o corpo de uma mãe... Estendido...  Morto!  Em uma cela de prisão.

 

segunda-feira, 26 de abril de 2004

 

“- Ai, é o zaP mano, deixa eu te contar um "bafão":- Beth e Lu do zaP é gente nossa, são do coração, brigam por nossa causa, de nós são companheiras, é a nossa cara mano, ama elas a vida inteira.”

Essa é a forma que nossas meninas nos apresentam a uma companheira nova.

Sempre somos SAUDADAS e apresentadas as meninas novas que infelizmente adentram os cárceres, mas ainda acreditamos, no fim da violência e na REABILITAÇÃO!

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