Um
condomínio
especial
Por:
Belvedere
Inadyr
emagrecia a olhos
vistos. Sua face
mostrava a opressão
em que vivia junto
ao marido, o irascível
Pedro Paulo, homem
de maus modos,
embora de trajes
finos e carro último
tipo.
Moravam num lindo
condomínio
fartamente
arborizado, cujas
ruas eram
divididas por
nomes de flores, e
de onde se
avistava área de
reserva, de forma
que se viam micos
pulando pulando
entre as árvores,
coisa realmente
encantadora.
Os moradores
costumavam dizer
que a única coisa
ruim do local
tinha por nome
Pedro Paulo. Em
suas mãos, não
apenas Inadyr
sofria, mas toda a
vizinhança.
Detestava cães, e
todos, exceto ele,
tinham mais de um,
em casa.
Ele tinha um
passarinho, cujo
nome era Bird.
Cara sem imaginação...
Além disso,
detestava crianças,
e dizia:- Não
tenho e jamais
terei filhos.
Criança é coisa
chata!
Certa manhã,
aparece morto o cão
de Adamastor, um
dos mais antigos
moradores do
condomínio. Homem
bom, mas que não
segurava
desaforos.
Desesperado,
disse: - Vou matar
Pedro Paulo. Sei
que foi o autor do
homicídio, pois cão
pra mim é gente,
e o caso, então,
caracterizado está
como homicídio.
Estou com esse revólver
- e mostrou a várias
pessoas - ficarei
à espreita e na
primeira
oportunidade eu o
pego.
Num final de
semana, após um mês,
Adamastor vai à
padaria comprar
uns frios, e
vinhos, pois
receberia alguns
amigos da firma
onde trabalhava.
Sua esposa, Célia,
estava animada com
a disposição
dele. Parecia
haver esquecido o
propósito de
assassinato. No
caminho, Adamastor
encontra Pedro
Paulo, que lhe dá
os pêsames pela
morte do cão. Ele
não se retrai,
pega o revólver e
dá um tiro que
pega na árvore
centenária que até
em jornais já
havia saído, em
matéria sobre
preservação do
meio ambiente. A
raiva aumenta, e
ele dá o segundo
tiro, que apenas
assusta os micos.
Pedro Paulo atônito,
fala: - Deixe
disso, meu irmão!
Que doideira é
essa?
Nesse exato
instante, Nildo,
apelidado de
"Rum
Creosotado",
que observava tudo
de seu portão,
desce as escadas e
vestido com seu
abadá adquirido
no último
carnaval, em
Salvador, diz -
Meninos, vamos
parar com essa
bobagem? E declama
o slogan
"veja ilustre
passageiro/o belo
tipo faceiro/que
você tem ao seu
lado/no entanto
acredite, quase
morreu de
bronquite/salvou-lhe
o Rum Creosotado"
Nildo "Rum
Creosotado",
tem uma
personalidade
carismática. É
excêntrico na
medida certa, não
incomoda, e só
alegra. Sua mansão
no condomínio é
a que mais atrai a
atenção. Tem
dois andares. No
segundo, tem três
suítes para hóspedes,
uma sala onde fez
seu home-theater e
a famosa Sala do
Ontem. Nessa sala,
entra-se como num
túnel do tempo.
Tendo herdado
muitas relíquias
de avô e do pai,
fez dela um
recanto mágico.
Inúmeros cartazes
de farmácia, da década
de 40, 50,
embalagens de remédios
antigos, artigos
como brylcreem, água
velva, o trio de
sabonete, água de
colônia e talco
Regina; tudo
guardado numa bela
cristaleira
antiga. Inúmeros
posters de cinema
com artistas antiqüíssimos.
A lambreta da década
de sessenta faz a
alegria da
garotada. Sobre
ela está uma
jaqueta de
couro... E vem o
som de outrora:
Glenn Miller,
Little Richards,
Elvis Presley, The
Beattles,
Francisco Alves,
Dircinha e Linda
Batista...
Após a intercessão
de Nildo, ambos se
afastam indo para
as respectivas
casas. Os dias
passam, mas a história
do assassinato do
cão não sai da
mente de Nildo, e
ele vai pesquisar
nas casas
comerciais sobre o
veneno de rato, e
quem o adquiriu
nos últimos
tempos. Logo
descobre que Pedro
Paulo havia, sim,
adquirido o veneno
na loja de Zé
Castro
A partir daí, ele
traça seus
planos. Na semana
seguinte encontra
Pedro Paulo na
loja de plantas
onde ele aprende a
arte do bonsai.
Espera,
pacientemente, ele
acabar e o convida
para um café no
bar ao lado.
Conversa com ele e
diz saber que é
ele o assassino do
cão. Pedro Paulo
confessa. Nildo
faz com que ele se
convença de que
tem que sair do
condomínio, já
que destoa de
todos. O pessoal
é feliz, amigo e
apenas ele é uma
pessoa de baixa
vibração
espiritual. Parece
odiar a vida. Ele
concorda e diz que
em um mês sairá.
Exatamente em um mês,
sai a mudança de
Pedro Paulo e
Inadyr. Sequer se
despedem da
vizinhança, o que
de fato era
dispensável, mas
ouvem a queima de
fogos, e a
algazarra da
garotada.
A bela Dolly de
Tarreville de tão
excitada no exato
momento da queima
de fogos dá à
luz uma ninhada de
oito lindos cãezinhos...E
Rum Creosotado
brinda com uma
garrafa de
champanhe!
De fato, agora,
realmente é um
condomínio muito
especial.
Midi:-
Alma
GÊMEA "Letra
e Música:-
Peninha"
67510558.5.18