Reencontro©
Gabi Zabeu


 



Naquela rútila, rosa manhã me rasgou tua lembrança rabiscada, me arrastando pelas ruas ainda escuras enquanto pensava eu em palavras impuras e injúrias e torturas a te sussurrar, a te conquistar...
Estava postada em frente a tua casa, parada, empedrada, teus passos lentos andavam sedentos pelo chão, perdidos pisando em minha direção, pareciam pairar sob meus pensamentos.
Não te disse uma palavra, eu não precisava, em tua mente já estava, meu olhar entregara, e nem um beijo me deu, meio sem jeito, me pegou pela mão, por entre os dedos perfeitos, leves como o ar, tantas vezes distantes, deixando de me tocar.
Mas teu triste olhar agora me fez tremer, tanto a te dizer... deixa eu olhar pra você... pois então que me calou, teus dedos singelos, serenos, minha boca tocou, como uma doce exigência, deleite e cale- se, me respeite...
Quisera eu mais que me arraste e então me amordace por entre tuas hastes e artes e partes, me enrosco em teus laços e livros e amassos, em páginas cheias e quadros e teias...
É esse teu jeito, teu cheiro, o leito que eu deito, teu peito, e te pego, te quero e apelo e me entrego...
É teu olhar, teu gosto, fogo posto, tuas poses e peles e pescoço.
Nossos corpos rentes, seu riso, sorriso e dentes, teus lábios calados, quentes, molhados e ousados, tua língua aos laços e traços deixam rastros, recados dos astros.
Tuas manias que me mastigam, me instigam, por entre cobertas, teus gestos e tuas pernas abertas...
Criamos enredos, histórias e segredos, mistérios incertos, projetos secretos... rútila manhã em que aqui deitada, continuo pasmada debaixo destes lençóis amarelos que escondem fábulas, farelos, e fatos, nossos retratos que talvez um dia serão contados.
Me mostra a pira do amor, da cor e da dor, do ardor, meu amor...

 

Gabi Zabeu

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